E então?
Um blog sobre não sei o quê
Sem corantes nem conservantes. Proveniente de uma região demarcada. Parte dele, passando ainda pelos pés de alguém. Cachos colhidos à mão, numa seleção criteriosa. Um toque de "não sei o quê" no seu sabor. Rotulado à mão e entregue apenas sob encomenda e mediante alguns requisitos. Eis um vinho de sabor especial e para ocasiões especiais (excepto se tivermos o azar de nos calhar uma garrafa menos boa, não é bichinho?). Produzido segundo uma receita ancestral, este vinho não está disponível para o comum dos mortais. Apenas umas quantas almas que tenham tido a sorte de lidar com, e cair nas graças de, uma certa pessoa, poderão algum dia almejar deliciar-se com este néctar. E digo tudo isto porquê? Porque já está disponível a colheita de 2005 e eu estou a ver se chove qualquer coisa para este lado! Eheheheh...
E que dor esta, em que vês os dias passar, sem nada conseguires fazer para que tudo tenha significado. Que vontade de tudo largares e num arremeter súbito procurares o ar que te falta. São paredes e talvez nada seja. Abraça-te. Sentes esta leve teia que te prende? Respiras fora de ti, pois estar contigo é estar demasiado cheio. Pudesses tu estender a mão e mais de ti serem reais. Imagens de espelho ou apenas outros reflexos de ti? Não pára, mas era mais fácil se o fizesse. Gira e volta a girar, num carrossel de tentativas em que o único perdedor és tu. Tens que correr. Não. Não corras. Avança devagar. Apenas devagar vais conseguir ver os pequenos detalhes que te têm escapado enquanto te apressas. As pequenas coisas que no final são o mais importante. As que realmente interessam. As outras, as que constantemente te iludem na sua intangibilidade, apenas estão lá para te fazer sofrer. Resiste à raiva, sorri no que te é negado. Afinal, estarás ciente do que te é concedido?




Este blog segue assim que possível.
Com os dedos um pouco doridos de termos levado com os carros do Francisco (filho de amigos) nas mãos, após o encontro imediato que tivémos com ele no café, Xuámos (1ª pess. plu. pret. perf. ind. de Xuar. Do latim Xuare: viajar no Xu) até ao Villaret. Engraçado como aquela zona da cidade continua a ser uma verdadeira corrida de obstáculos. Com tantos traços e barreiras espalhadas por ali, até a pé é complicado saber por onde ir! Como bons portugueses, desta vez, chegámos mesmo em cima da hora. Tal como o resto das pessoas. Como tal, lá começou a peça com o atraso de 15 minutos da ordem. Ao meu lado, um pai com a filha de dois anos ao colo. "Bolas, quem é que traz crianças tão pequenas para este tipo de peças?", pensámos nós. Mas, a criança portou-se lindamente. Aliás, muito melhor que bastantes adultos. Enfim. A peça é um fartote de rir. Começa calmamente, depois embala e já ninguém os pára. Acho que a seguir ao intervalo já não havia ninguém sem dores de barriga e/ou bochechas doridas de tanto rir. Só vos digo isto: Vida de bígamo não é fácil!
Este é o retrato possível do que eu sinto, quando acordo a meio do dia, depois de mais uma noite de trabalho. "Como um zombie", "com vontade de fazer nada", "extremamente apático" ou "repete-lá-devagarinho-porque-eu-não-percebi-essa-parte-do-olá", são expressões que me são familiares. Mas, pelo menos, já consegui sorrir um pouco ao olhar para este boneco!
Ahh, o melão... Uma das frutas de que mais gosto, mas que se revela de personalidade difícil. Sim, que aquele senhor esconde-se por trás da sua casquinha e torna-se bastante complicado lê-lo. Como saber se por dentro ele está com aquela côr branco-alaranjado e docinho ou branco-esverdeado e ainda verde como o caraças? Pois. Existem verdadeiros artistas no escolher dos ditos. Eles apalpam aqui e ali, eles cheiram, eles tomam-lhes o peso, eles viram-nos do avesso e novamente ao contrário, eu sei lá. O que eu sei é que estava farto de não comer um melãozito de jeito há que tempos e então tratei de me iniciar nesta prática quase mística que é escolher um melão. Depois de reunir alguns concelhos junto de uns quantos experts na matéria, rumei à mercearia e pus os meus conhecimentos à prova. Fiz a minha melhor cara de conhecedor (sobrolho franzido e o que se assemelha levemente a um olhar de entendido) e deitei mãos aos melões. Tomei-lhes os peso, apalpei-lhes o cu, pressionei-os no meio com as duas mãos, aproximei-os do nariz e cheirei-os (cheiram a casca de melão!), observei a coloração da casca, vi se o pé estava seco ou não, enfim, parecia um mago da escolha do melão. Quando me dei por satisfeito, lá levei o eleito e rumo a casa. Peguei na faquinha e tratei de o abrir ao estilo profissional: Um corte em cada extremo e belas talhadas com formato de sorriso a aparecer. Posso desde já dizer que nunca comi uma abóbora tão boa! E agora digam lá se não é fácil escolher um bom melão?
Porque estou? Modo estranho de vida que muitos não compreendem. Estar ali para todos verem. Sujeito à crítica mais mordaz, sujeito às palavras mais carinhosas. Satisfação pessoal. Culto da própria pessoa. Talvez nada disso e nem eu mesmo saiba o porquê. Com certeza o prazer em criar novos laços. Conhecer realidades que sempre existiram foram do meu círculo normal. Realidades que de outra forma permaneceriam estranhas. Será mais fácil a aproximação assim? Será. Primeiro a coberto do anónimato. Depois com mais uma troca de palavras. Em seguida com uma grande troca de palavras que, na maioria dos casos, nos dá um imagem que pode corresponder à verdade. Na maioria dos casos corresponde. Finalmente quando se vencem as barreiras, uma troca frontal de palavras, onde apesar de muitas vezes nunca se ter visto a cara, parece-nos já ter visto a pessoa. E aqui, no geral, se as palavras provocaram empatia, a pessoa provoca empatia. Ou não. Mas este caso é um pouco mais raro. E porque estou? Continuo sem saber. Vou estando, até que me falte a vontade para estar. Até que tudo deixe de ter significado. Quando me parecer que nada mais há a dizer. Ficarão os bons momentos. Os sorrisos com as palavras de alguém. As ofensas que se quedaram pelo seu vazio. Os novos amigos. A recordação dos primeiros encontros. O inesperado de vidas que se cruzam às cegas. No final, nada terá sido em vão.
Pearl Jam - Black